sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Final do Nível 4


FINAL DO NÍVEL 4 - O tempo voa! Esta semana tivémos a professora Jet Eveleth, para inveja das restantes turmas. Jet é das artistas mais conceituadas aqui da praça, e percebe-se porquê. Tem uma abordagem muito zen, muito orgânica da arte da improvisação. Explora a fisicalidade como ninguém e entrega-se a 100% nas cenas. É sensorial e pratica ioga e meditação. Acredita na vontade dos "Improv Gods" e que se calhar todas as improvisações já estão escritas e que se estivermos atentos vamos conseguir concretizar os desígnios supremos.
Dito assim parece que ela é uma afectada, mas na realidade as aulas foram muito eficazes e práticas. Conseguimos perceber que existe, de facto, algo de místico num Harold. Se estivermos bem atentos às nossas próprias criações desde o início, podemos perceber que há padrões que se repetem, sons, imagens que teimam em regressar naturalmente nos momentos mais surpreendentes. E devemos saber explorar isso! Isto é difícil de explicar em texto, por isso vou só resumir o trabalho da semana:
- Harolds orgânicos (peças que partem do trabalho físico do grupo. Cenas a dois que saem da "massa" que depois são "engolidas" pela massa humana, que se transforma e volta a dar à luz uma nova cena, etc.)
- Iniciações: Aproveitar o primeiro segundo para a personagem: o primeiro movimento, o primeiro instinto, som, etc é o que vai ser a personagem inicial. Isto para mim foi uma lição muito importante, porque realmente resulta assim que conseguirmos superar o medo (o que leva tempo, por isso é que só na 4ª semana é que consegui verdadeiramente).
- Reconhecimento e exploração de padrões: O que acontece duas vezes tem de acontecer três. E o que acontece três vezes é um padrão. E o padrão é para explorar - tanto a nível individual como a nível de trabalho de grupo. É mágico revisitar (não quer dizer repetir) certas coisas.
- Stick to it!: Começaste uma coisa? Não abandones, investe! A justificação há-de chegar. Se fizermos as coisas com convicção, o público vai achar que existe uma razão.
- If we all look silly, no one looks silly.
- Verdade emocional no olhar: a melhor maneira de estabeler uma relação com o parceiro é trocar olhares e estabelecer uma cumplicidade. TJ & Dave são os reis desta técnica. Leva tempo.
- Edits e mais edits: O "edit" (o que corta uma cena para começar outra) clássico do Harold é o varrimento pela frente (um actor percorre o palco pela frente, de uma ponta à outra). A Jet ensinou-nos mais um monte de formas originais (e orgânicas) de fazer edits. Espectacular. Um grupo com bom entendimento consegue grandes resultados com edits arrojados (ex. edit interno: um dos actores que está em cena começa uma nova cena, alterando alguma coisa em si, e os outros percebem e seguem-no imediatamente para novas personagens que se adequam à proposta).

Um exemplo de uma cena muito bonita que fizémos num Harold:
Num dos edits internos, dois actores ficam frente a frente, como homem e mulher. Mudo de posição de fico de braços abertos atrás deles, em forma de cruz, com intenção de sinalizar uma igreja e eventualmente celebrar um casamento. Eles começam a discutir e a cena afinal parece passar-se na casa deles. Portanto fiquei pendurado, mas mantive a posição. Ainda pensei interromper e perguntar "isto quer dizer que já não há casamento?" mas resisti à gracinha e ali fiquei. Aquela posição, para o público poderia até signicar uma espécie de divisão, visto que tinha cada um simetricamente de um dos lados. No edit seguinte, um colega pega em mim e coloca o meu braço à volta dele, chamando por socorro enquanto me carrega para o hospital. A enfermaria apareceu rapidamente. O meu salvador trata-me por pai. O meu estado corporal levou a criar uma personagem atordoada. Ao olhar para ele, explico ao enfermeiro que aquele não é meu filho, quero-me ir embora, etc. Enquanto filho e enfermeiro estão um bocado sem saber o que fazer, reparo que na outra ponta do palco está um colega sentadinho numa cadeira (optou por posicionar-se ali, eventualmente com intenção de começar uma cena nova ali. Mas os Deuses quiseram que a cena fosse outra e ele, muito bem, em vez de dar dois passos para o lado e sair de cena, ali se deixou ficar, com um ar muito sereno e convicto). Pergunto se "estão a ver aquela mulher a acenar". Eles olham à volta e olham para mim com ar de pena. Volto a insistir, adicionando que se "Vêem a mulher com trapos brancos". Foi o clique para um dos colegas de fora se colocar por trás da mulher e formar umas enormes asas. Agora tinha um anjo a voar para mim, apoiado por um coro angelical (colegas de fora) e eu a levitar para fora da enfemaria, a caminho do céu, enquanto pai e enfermeiro gritavam desesperados a "partida" do pai. Foi um momento tocante e absolutamente magnífico. Foi inventivo, com espírito de grupo e verdade emocional. Os anjos e o coro musicado mantiveram-se como elementos recorrentes do Harold.

Agora uma notícia triste: Infelizmente para o grupo e para o próprio, o nosso querido amigo Damon (o Australiano) teve uma rotura num joelho e vai ter de abandonar as aulas para regressar ao seu país. É triste ver partir um dos mais talentosos e entusiastas elementos do grupo. :(

OPEN COURT NIGHT - Na quinta-feira à noite fui com uns colegas ao Playgound, um espaço alternativo de Improv. Nessa noite era Open Court, ou seja, quem lá aparecesse para improvisar seria sorteado para entrar numa das três equipas e teriam de actuar. Foi muito divertido! Dividiram-nos em três equipas de 16 elementos, cada uma liderada por um improvisador experiente. Felizmente na minha equipa calharam 3 colegas da turma. Os outros eram-me desconhecidos, mas rapidamente ficámos amigos, durante o aquecimento de 10 minutos que fizémos, em círculo. A nossa actuação teria 18/20 mins. Cada equipa era livre de escolher um formato. A nossa lídera optou pela simples "montage" (fazer cena após cena, sem regras complicadas). Combinámos começar lento, com cenas a dois ou a três, de dois ou três minutos cada, e a partir daí começar a acelerar nas mudanças de cenas, de personagens, nas cenas de grupo, no devaneio.
Fomos a terceira equipa a apresentar e acho que fomos a melhor. Os outros atacaram o absurdo e esforçaram-se para chegar à piada. O nosso também atacou a piada mas esteve mais harmonioso. Tivémos repetições de padrões e presença do tema ("doces"). Ao principio estava um pouco nervoso e até achei que só ia fazer figuração, mas depois lá ganhei coragem e entrei, para ver o que acontecia. Fiz a terceira cena, com um desconhecido. Ele disse que estava desapontado comigo e tratou-me por filho. A exploração da cena explicou que o filho dança de forma estranha em frente aos colegas de trabalho do pai. Os que estavam de fora colocaram em cena funcionários e claro que eu tive que dançar, para desespero paterno (uma dança maluca, frenética e desesperada). No regresso ao presente, o pai ameaça começar a dançar também, e eu coloco a cena à entrada da minha escola e suplico para ele não me envergonhar, que é como quem diz "sim, sim dança também para eu ser humilhado". Este tema seria revisitado mais duas vezes: um homem estava a fazer uma cena com o actor que fez de meu pai. Era uma cena chefe-empregado. A dada altura, o chefe despede o empregado porque vão contratar um elemento que dança melhor. Muito bom! Toda a gente fez a associação. A terceira visita foi quando eu e uma mulher começamos uma nova cena. A corrente levou a que ela fosse uma louca que me perseguia desde há anos, que tinha a minha foto estampada na sua camisa, etc. Ela pede-me uma última dança e eu, pelo bem da cena, concedo. Lá estava eu, de novo, a dançar. Os outros colegas exploraram mais o tema dos doces, o que foi óptimo.
No final estávamos todos satisfeitos com o desempenho dos 5 colegas do iO. Conhecidos e desconhecidos vieram-me dar os parabéns pelo meu trabalho e, especialmente, pelos meus "dance moves". lol. Aqui na América fartam-se de gabar a minha "great physicality". E percebo porquê. Porque a maior parte dos improvisadores não vem do teatro clássico, usam mais a cabeça do que o corpo. E o actor de teatro sabe utilizar o posicionamento, a postura e o corpo como expressão. Para a maior parte deles, comunicar é dialogar, para mim não é só. :)


WORKSHOP POWER LISTENING - Sexta é dia de workshops e desta vez foi com Miles Stroth, um conceituado professor de Los Angeles. Foi bastante interessante e um bocadinho Mind-Bogling (adoro este termo). Aprendemos (pelo menos) duas coisas importantes:
- Fazer cenas Straight guy /Absurd guy: Se há um que é "maluco", o outro não deve ser maluco, deve fazer o papel do straight guy. E depois aprendemos técnicas para gerir esta relação e explorá-la convenientemente.
- Find your drive: What drives your character? É o que temos que descobrir na cena, o quanto antes, de forma podermos viver com a personagem de forma sustentada e não defraudarmos o público. (exemplo simplista: se determino que o meu objectivo é sentar-me na cadeira, podem acontecer muitas coisas, mas tudo o que faço tem esse objectivo em mente. Se, a dada altura, eu abandonar isso, o público vai estremecer, a personagem vai perder consistência e em breve o actor vai ficar assustado). Encontrar o "drive" para a personagem não é fácil, porque de início estamos a descobrir o quem, o quando, o onde, o como, etc. Mas a experiência agiliza os processos.

Del Close, o (falecido) criador do Harold uma vez comparou o Harold a "um grupo de pessoas a cair da escadas e a aterrarem de pé, no final". E é mais ou menos essa a sensação. :)


Isto está a ser francamente cansativo, mas não posso parar, não posso parar!

2 comentários:

  1. Vejo que continuas a dar-lhe bem :) Man, promete-me apenas uma coisa... Que não te ficas por aí e deixas a gente, começo a ficar com medo!!! Abreices!

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  2. Pedrooo, que saudades, padrinho favorito!! Vejo que foram umas semanas do melhor...
    eish, temos mesmo de combinar alguma coisa, convosco e com as outras estarolas...
    beijos mil!
    M.

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