FINAL DO NÍVEL 4 - O tempo voa! Esta semana tivémos a professora Jet Eveleth, para inveja das restantes turmas. Jet é das artistas mais conceituadas aqui da praça, e percebe-se porquê. Tem uma abordagem muito zen, muito orgânica da arte da improvisação. Explora a fisicalidade como ninguém e entrega-se a 100% nas cenas. É sensorial e pratica ioga e meditação. Acredita na vontade dos "Improv Gods" e que se calhar todas as improvisações já estão escritas e que se estivermos atentos vamos conseguir concretizar os desígnios supremos.
Dito assim parece que ela é uma afectada, mas na realidade as aulas foram muito eficazes e práticas. Conseguimos perceber que existe, de facto, algo de místico num Harold. Se estivermos bem atentos às nossas próprias criações desde o início, podemos perceber que há padrões que se repetem, sons, imagens que teimam em regressar naturalmente nos momentos mais surpreendentes. E devemos saber explorar isso! Isto é difícil de explicar em texto, por isso vou só resumir o trabalho da semana:
- Harolds orgânicos (peças que partem do trabalho físico do grupo. Cenas a dois que saem da "massa" que depois são "engolidas" pela massa humana, que se transforma e volta a dar à luz uma nova cena, etc.)
- Iniciações: Aproveitar o primeiro segundo para a personagem: o primeiro movimento, o primeiro instinto, som, etc é o que vai ser a personagem inicial. Isto para mim foi uma lição muito importante, porque realmente resulta assim que conseguirmos superar o medo (o que leva tempo, por isso é que só na 4ª semana é que consegui verdadeiramente).
- Reconhecimento e exploração de padrões: O que acontece duas vezes tem de acontecer três. E o que acontece três vezes é um padrão. E o padrão é para explorar - tanto a nível individual como a nível de trabalho de grupo. É mágico revisitar (não quer dizer repetir) certas coisas.
- Stick to it!: Começaste uma coisa? Não abandones, investe! A justificação há-de chegar. Se fizermos as coisas com convicção, o público vai achar que existe uma razão.
- If we all look silly, no one looks silly.
- Verdade emocional no olhar: a melhor maneira de estabeler uma relação com o parceiro é trocar olhares e estabelecer uma cumplicidade. TJ & Dave são os reis desta técnica. Leva tempo.
- Edits e mais edits: O "edit" (o que corta uma cena para começar outra) clássico do Harold é o varrimento pela frente (um actor percorre o palco pela frente, de uma ponta à outra). A Jet ensinou-nos mais um monte de formas originais (e orgânicas) de fazer edits. Espectacular. Um grupo com bom entendimento consegue grandes resultados com edits arrojados (ex. edit interno: um dos actores que está em cena começa uma nova cena, alterando alguma coisa em si, e os outros percebem e seguem-no imediatamente para novas personagens que se adequam à proposta).
Um exemplo de uma cena muito bonita que fizémos num Harold:
Num dos edits internos, dois actores ficam frente a frente, como homem e mulher. Mudo de posição de fico de braços abertos atrás deles, em forma de cruz, com intenção de sinalizar uma igreja e eventualmente celebrar um casamento. Eles começam a discutir e a cena afinal parece passar-se na casa deles. Portanto fiquei pendurado, mas mantive a posição. Ainda pensei interromper e perguntar "isto quer dizer que já não há casamento?" mas resisti à gracinha e ali fiquei. Aquela posição, para o público poderia até signicar uma espécie de divisão, visto que tinha cada um simetricamente de um dos lados. No edit seguinte, um colega pega em mim e coloca o meu braço à volta dele, chamando por socorro enquanto me carrega para o hospital. A enfermaria apareceu rapidamente. O meu salvador trata-me por pai. O meu estado corporal levou a criar uma personagem atordoada. Ao olhar para ele, explico ao enfermeiro que aquele não é meu filho, quero-me ir embora, etc. Enquanto filho e enfermeiro estão um bocado sem saber o que fazer, reparo que na outra ponta do palco está um colega sentadinho numa cadeira (optou por posicionar-se ali, eventualmente com intenção de começar uma cena nova ali. Mas os Deuses quiseram que a cena fosse outra e ele, muito bem, em vez de dar dois passos para o lado e sair de cena, ali se deixou ficar, com um ar muito sereno e convicto). Pergunto se "estão a ver aquela mulher a acenar". Eles olham à volta e olham para mim com ar de pena. Volto a insistir, adicionando que se "Vêem a mulher com trapos brancos". Foi o clique para um dos colegas de fora se colocar por trás da mulher e formar umas enormes asas. Agora tinha um anjo a voar para mim, apoiado por um coro angelical (colegas de fora) e eu a levitar para fora da enfemaria, a caminho do céu, enquanto pai e enfermeiro gritavam desesperados a "partida" do pai. Foi um momento tocante e absolutamente magnífico. Foi inventivo, com espírito de grupo e verdade emocional. Os anjos e o coro musicado mantiveram-se como elementos recorrentes do Harold.
Agora uma notícia triste: Infelizmente para o grupo e para o próprio, o nosso querido amigo Damon (o Australiano) teve uma rotura num joelho e vai ter de abandonar as aulas para regressar ao seu país. É triste ver partir um dos mais talentosos e entusiastas elementos do grupo. :(
Fomos a terceira equipa a apresentar e acho que fomos a melhor. Os outros atacaram o absurdo e esforçaram-se para chegar à piada. O nosso também atacou a piada mas esteve mais harmonioso. Tivémos repetições de padrões e presença do tema ("doces"). Ao principio estava um pouco nervoso e até achei que só ia fazer figuração, mas depois lá ganhei coragem e entrei, para ver o que acontecia. Fiz a terceira cena, com um desconhecido. Ele disse que estava desapontado comigo e tratou-me por filho. A exploração da cena explicou que o filho dança de forma estranha em frente aos colegas de trabalho do pai. Os que estavam de fora colocaram em cena funcionários e claro que eu tive que dançar, para desespero paterno (uma dança maluca, frenética e desesperada). No regresso ao presente, o pai ameaça começar a dançar também, e eu coloco a cena à entrada da minha escola e suplico para ele não me envergonhar, que é como quem diz "sim, sim dança também para eu ser humilhado". Este tema seria revisitado mais duas vezes: um homem estava a fazer uma cena com o actor que fez de meu pai. Era uma cena chefe-empregado. A dada altura, o chefe despede o empregado porque vão contratar um elemento que dança melhor. Muito bom! Toda a gente fez a associação. A terceira visita foi quando eu e uma mulher começamos uma nova cena. A corrente levou a que ela fosse uma louca que me perseguia desde há anos, que tinha a minha foto estampada na sua camisa, etc. Ela pede-me uma última dança e eu, pelo bem da cena, concedo. Lá estava eu, de novo, a dançar. Os outros colegas exploraram mais o tema dos doces, o que foi óptimo.
No final estávamos todos satisfeitos com o desempenho dos 5 colegas do iO. Conhecidos e desconhecidos vieram-me dar os parabéns pelo meu trabalho e, especialmente, pelos meus "dance moves". lol. Aqui na América fartam-se de gabar a minha "great physicality". E percebo porquê. Porque a maior parte dos improvisadores não vem do teatro clássico, usam mais a cabeça do que o corpo. E o actor de teatro sabe utilizar o posicionamento, a postura e o corpo como expressão. Para a maior parte deles, comunicar é dialogar, para mim não é só. :)

WORKSHOP POWER LISTENING - Sexta é dia de workshops e desta vez foi com Miles Stroth, um conceituado professor de Los Angeles. Foi bastante interessante e um bocadinho Mind-Bogling (adoro este termo). Aprendemos (pelo menos) duas coisas importantes:
- Fazer cenas Straight guy /Absurd guy: Se há um que é "maluco", o outro não deve ser maluco, deve fazer o papel do straight guy. E depois aprendemos técnicas para gerir esta relação e explorá-la convenientemente.
- Find your drive: What drives your character? É o que temos que descobrir na cena, o quanto antes, de forma podermos viver com a personagem de forma sustentada e não defraudarmos o público. (exemplo simplista: se determino que o meu objectivo é sentar-me na cadeira, podem acontecer muitas coisas, mas tudo o que faço tem esse objectivo em mente. Se, a dada altura, eu abandonar isso, o público vai estremecer, a personagem vai perder consistência e em breve o actor vai ficar assustado). Encontrar o "drive" para a personagem não é fácil, porque de início estamos a descobrir o quem, o quando, o onde, o como, etc. Mas a experiência agiliza os processos.
Del Close, o (falecido) criador do Harold uma vez comparou o Harold a "um grupo de pessoas a cair da escadas e a aterrarem de pé, no final". E é mais ou menos essa a sensação. :)
Isto está a ser francamente cansativo, mas não posso parar, não posso parar!
Vejo que continuas a dar-lhe bem :) Man, promete-me apenas uma coisa... Que não te ficas por aí e deixas a gente, começo a ficar com medo!!! Abreices!
ResponderEliminarPedrooo, que saudades, padrinho favorito!! Vejo que foram umas semanas do melhor...
ResponderEliminareish, temos mesmo de combinar alguma coisa, convosco e com as outras estarolas...
beijos mil!
M.