
Está quase a terminar o curso, está a chegar ao fim a aventura.
No fim-de-semana aproveitei para ir passear um pouco pela cidade. Comprei um tour ticket e meti-me naqueles autocarros abertos que correm a cidade. Foi óptimo! Depois ainda me fartei de andar. É muito agradável caminhar nesta cidade, existe "good vibe" aqui.
CURSO - Nesta última semana tivémos o prof. Carig Uhler, um veterano do improv e um dos elementos dos míticos Middle-Age Comeback. Nos primeiros dias levámos uma tareia. Ele foi um bocado "directo" e chamou-nos a atenção dos erros que estávamos a cometer. E não eram poucos. Até eu dei por mim a caír em armadilhas de cenas que já estava a habituado a detectar nos outros. Foi óptimo para percebermos que isto é uma arte difícil e sensível, e ao fim do dia já eramos mais espertos e estávamos mais atentos aos problemas. Por muitos livros que leiamos, por muitos workshops que frequentemos, por muitos espectáculos que visualizemos, no momento da cena só podemos contar com o nosso instinto. E esse precisa de experiência e maturação para absorver a teoria.
Não deve por acaso que os melhores improvisadores são os que andam nisto há mais tempo. E é frequente ver alunos formados em vários cursos a cometer erros grosseiros, tanto a nível individual como de grupo.
O Craig ontem pôs-nos a fazer exercícios para nos espevitar a capacidade criativa e ultrapassarmos o medo (insconsciente). Foi fantástico fazer peças em que não podíamos ser humanos. Porquê? Porque saltar para uma cena e fazer QUALQUER coisa que não é humana é ter de criar fisica e psicologicamente algo que foge ao racional. Já não podemos atacar uma cena como o "chefe de secção" ou o "marido controlador" ou "o militar que está na guerra". Não! Agora somos tudo e nada! Entrar em cena com um colega, assumir uma posição e ter que justificar o que estamos a fazer é uma tarefa do caraças! Difícil e recompensadora. Durante 40 minutos vi-me durante grande parte do tempo sem saber ao certo o que era ou o que estávamos a fazer e foi FANTÁSTICO! Faz com que uma pessoa apenas esteja no momento a criar e a trabalhar com os colegas para construir a cena. E houve momentos magníficos, que partiram de pontos abstractos. E as relações aconteceram à mesma! (it's not the what, who or where, it's the HOW)
Isto escrito assim é uma confusão, mas eu quis partilhar.
LÁ DO FUNDO - Tenho pensado e lido muito sobre o "medo" na improvisação. É incrível como está sempre presente e se manifesta das mais variadas formas, muitas das quais nem nos apercebemos. Os nossos sistemas de auto-defesa sociais, o auto-julgamento e a falta de confiança são os maiores obstáculos à capacidade criativa. E pior é que, por defesa, somos capazes de atacar e destruír, mesmo sem querer ou sem o saber.
E ignorante seja aquele que ache que estes sintomas pertencem aos amadores. Coloquem um "sr. actor" que esboçar um sorriso de escárnio sobre esta teoria a tentar improvisar e vos direi de que mil formas o senhor actor se tenta defender.
Oh, é tão mais fácil quando nos podemos esconder por detrás de um texto escrito, de um cenário montado e das "opções" do encenador. Se alguém não gostar do serviço prestado, quantos actores ouvimos assumir a sua culpa, verdadeiramente? Pois. Porque, na verdade, estão por detrás de tantas cortinas, que em caso de emergência basta fechá-las para que se tapem as vergonhas. Não digo isto com maldade, digo porque sinto a diferença entre ter de criar por instinto, numa posição frágil, e criar com elementos diversos que podem partilhar connosco o risco da (re)criação.
Para improvisar é preciso aceitar o desconhecido e a vulnerabilidade. É tão fácil como nos dispormos a ir nús para a rua numa noite escura...
TJ & DAVE - O último espectáculo a que assisti antes do regresso a Portugal. E que belo presente de despedida! Foi o melhor que eu vi deles. Teve muita técnica, muitas personagens, momentos absolutamente ternos e tocantes, teve momentos hilariantes e momentos negros. Foi magnífico e inesquecível. É incrível como dois homens sozinhos conseguem criar espectáculos mais ricos do que algumas peças do D. Maria com cenários de luxo e elencos de 20 actores...
Amanhã é o dia da apresentação. Não estamos nervosos, aquilo vai ser uma celebração do culminar de uma bonita aventura. Temos o instinto, a ajuda dos colegas e algumas cadeiras para fazer do nada um belo todo.
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