quinta-feira, 30 de julho de 2009

Final do nível 3

E pronto, o tempo voa e já lá vai mais de metade do curso!

NÍVEL 3 - Já nos tinham dito que neste nível íamos ficar baralhados e questionar tudo e até duvidar de nós. E assim foi. Fartámo-nos de fazer de fazer iniciações de cenas e cenas (sempre curtas) a dois. O que é uma coisa difícil, especialmente em quantidade e sem um ponto de partida (quando temos um plot a decorrer é mais fácil encontrar inspiração). A iniciaçao da cena é das coisas mas difíceis da improvisação e correm várias teorias nos livros sobre o assunto.
"Quando não temos nada, o que fazemos?" é a grande questão. E há muitas possibilidades: olhar para o parceiro; nívelar energias; entrar com uma emoção e depois o corpo ajusta-se; entrar com uma posição física e depois a emoção aparece; começar com uma acção física; atacar com uma frase, etc.
Se alguém se deu ao trabalho de pesquisar o site que tem aquelas entrevistas, vai ver que esta é das questões que é sempre colocada aos improvisadores: "Como é que começas as cenas?". E por muitas que se façam, há sempre um receio pré-cena. "Devo ir em branco ou já com algo preparado? (dizem q o melhor é ir em branco, mas isso de início é muito difícil porque o medo é o pior inimigo do improvisador, e se não estamos totalmente à vontade, temos medo) Já fiz tantas personagens, e se esgoto a criatividade? (acaba por nunca acontecer, mas o receio existe sempre) Tenho medo de repetir cenas ou personagens (também nunca acontece, sabe-se lá como)?
Fizémos montes e montes de cenas a dois, com várias variantes de exercícios. Foi proveitoso, mas acho que só para a semana é que vou perceber que efeitos isso teve na prática.
Uma coisa é certa: quando começa a cena é preciso fazer alguma coisa, mesmo que seja olhar activamente para o parceiro, de preferência com uma emoção. A relação com o outro trata de descobrir o que se passa e quem são as personagens em cena.


EXERCÍCIO INTER-TURMAS - Hoje, final de nível 3, houve um mix com as quatro turmas do Intensive (cada uma tem 14 alunos). Cada grupo fez uma apresentação de 15/20 mins. Foi muito proveitoso, deu para tirar muitas ilações. O nosso grupo foi o primeiro. Pedimos um local genérico, deram-nos "Fire Station" e começámos. Tratou-se de uma sucessão de cenas à volta do tema e do que ia surgindo. Houve uma cena de salvamento de um gato, outra de uma namorada de bombeiro, outra de uma formatura em que se descobria que os bombeiros tinham cápsulas de emergência para se suicidarem caso ficassem presos num incêndio. Depois questões sobre a falta de equipamento da equipa. Depois eu ataquei com a ideia de o McDonnald's ia patrocinar os Bombeiros e cada vez que apagassem um fogo teriam de publicitar a marca. O tema foi bem explorado e fizémos cenas no McD e aconteceram mais peripécias que agora nem me ocorrem. Correu razoavelmente bem, estando por dentro nem sei bem avaliar, mas acho que pelo menos explorámos hipóteses interessantes. Havia alguma pressa em fazer as coisas e com grupos tão grandes havia muita gente a querer entrar com ideias, o que levou a um ritmo demasiado rápido e poucas cenas a dois para acalmar. Mas no fim, comparando com os outros, acho que fomos bons.
Ao ver os outros grupos apercebi-me de certas virtudes e defeitos. O segundo grupo trabalhou bem ao nível do espírito de entre-ajuda. Os que estavam de fora ajudavam bastante a cena com sons e algumas entradas para fazerem de objectos ou cenário. A dada altura estavam muito perdidos, às vezes as cenas vão-se desenrolando, levadas pelo instinto, e depois é preciso encontrar o caminho da luz. Como já disse anteriormente, estas improvisações são como uma estrada que percorremos às escuras, bla bla bla.
Pelo lado negativo, vi dois grupos que foram mais fraquinhos. Um deles começou a baixar o nível ("went blue", como dizem por aqui). O tema era "infértil" e começou com um tipo a dizer que lhe caíu o pénis. Pumba, peça no esgoto. Sim, houve risos, mas o nível foi parar lá abaixo. Esse mesmo tipo fez todas as suas participações com caretas (olhos esbugalhados, voz de pato e aquele virar de corpo para o público para tentar ter graça). Outros puseram-se, logo de início, com indícios homo, o que também é uma coisa muito elevada. São saídas fáceis que depois de vermos duas e três vezes já percebemos que não vêm da cena mas sim do pânico dos actores. E se percebemos que estão em pânico, percebemos que não sabem o que estão a fazer. E isso é mau. Não é que esse tipo de cenas não sejam possíveis, e até com graça, mas têm de ser justificadas e assumidas! Porque quando tomamos uma decisão em cena, é para manter e aumentar! E cuidado, já vi os Cook County a irem por esse caminho com muito brilho, com todo o COMMITMENT, mas aquilo acabou num nível brutal (embora brilhante, porque foram até ao fim). Porque quando o jogo começa, criam-se expectativas e depois não pode parar... e não parou. lol
Outro grupo tinha um elemento que, pelos vistos, tinha muito jeito para fazer um mosquito robótico. Então arranjaram maneira de ENFIAR o mosquito na peça. No início pediram a sugestão ao público da seguinte forma "vamos para o ano 2034 e queremos saber com o que é matamos um bug?". E pimba, à segunda cena lá estava ele a fazer o brilharete. Sim, ele era virtuoso, mas no público sentiu-se a frieza de quem sabia que aquilo não era improvisado.
Foi bom fazermos um exercício de grupo e vermos os outros a fazer. Falhar e aprender. Aprender a falhar. E apoiar os colegas, visto que só eles nos podem ajudar em cena.
Amanhã é dia de Workshops (um deles será o Improv Shakespeare) e para a semana começa o nível 4, onde vamos fazer cenas de grupo e Harolds com fartura!



MAIS ESPECTÁCULOS - Ontem vi mais um TJ & Dave. E já reservei para as próximas duas semanas. Ao segundo espectáculo já começo a perceber um padrão que vou ver se se mantém em espectáculos futuros. Eles são os reis do improv, pela categoria apresentada e pela calma com que fazem as coisas. E as situações que apresentam não são bizarras ou espectaculares, como acontece normalmente (como no improv tudo é possível, o pessoal usa isso para estimular as cenas e conseguir resultados - o que é perfeitamente legítimo!). Mas eles têm personagens do quotidiano, gente possível - em situações pequenas! E no entanto, ficamos encantados com o pouco que acontece, que é tanto...
Não deve ser fácil atingir este nível, porque ninguém mais faz o que eles fazem. E, com certeza, muitos gostariam de lá chegar. Boas notícias: comprei 3 vídeos deles! weeee! Já vi um e a minha vontade é de comprar mais 7 para ter 10!
Ainda não falei de um espectáculo interessante: O FELT. É improvisação com bonecos (marionetas tipo Rua Sésamo). Não foi tão bom como eu esperava, acho que as limitações técnicas de movimentação no espaço prejudicam o espectáculo. Fica o registo, pela originalidade.
Amanhã vou ver um espectáculo chamado "StoryBox", que parece bastante interessante. Segundo eles, são histórias dentro de histórias. São 8 story-tellers, cada um com um cajado e uma capa, que constróem histórias e cenários (utilizando os paus e os panos para o efeito).
Ainda me falta ver o Improv Musical (como deve ser), um Improv que é feito a partir das notícias do dia (dito assim parece-me uma coisa com potencial), um Musical Improv só com um actor (!) e mais nem sei bem o quê.


BASEBALL - Lá arranjei bilhetes (40$!) para o baseball! Então eu e o Australiano lá fomos. Foi muito estranho. Aquela gente... durante dois terços do jogo, não estavam a ligar nenhuma. Ouvindo o som parecia que estávamos numa marisqueira, com barulho de gente a conversar. E a beber cerveja, bumba bumba! Quando o jogo chegou a meio, pararam de vender cerveja. lol. Dever ter a ver com "responsible drinking, etc". (um aparte: aqui só se pode beber a partir dos 21, mas com 16 já podes conduzir. O que é que será mais perigoso?) Depois... descobri que um jogo de Baseball dura pelo menos umas 2h30/2h45. Isto se não empatar (que foi o caso)! Aí joga-se um prolongamento. Se continuar empatado, vai mais um, até se decidir quem ganha. Os Chicago Cubs ("Cubbies") lá ganharam (no 4ª prolongamento). Mas aquele público (40.000 pax) estava no estádio como se estivessem numa esplanada ou num pic-nic. Não puxavam pela equipa, não cantavam, não nada, só conversavam e bebiam. Só lá para o final é que arrebitaram um bocadinho e nos pontos altos batiam palmas e diziam qualquer coisa. É o jogo mais pacífico do mundo, não há empolgamento no público! Mas o estádio está sempre cheio e vê-se famílias inteiras, muitas mulheres (tantas como homens eu diria) e crianças. Pronto, foi uma experiência gira, mas para não repetir. :)

4 comentários:

  1. Caramba, vejo que esse workshop ainda é mais completo que eu imaginava!! Grandes progressos!
    Essa então de partir do NADA é impressionante... Falaste em nivelação de energias... Isso tem alguma coisa a ver com aquele jogo de ensaio que por vezes a Sanne nos pede para fazer, em que não podemos falar nem gesticular mas temos de interagir? No fundo o mesmo princípio que rege aquele jogo de emoções na sala de cinema, não é? E dizes que pode nascer uma cena de improv long-form a partir disso?? Que espanto!!!!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Sim, é por aí. Mas atenção, iniciação é a forma como se começa uma cena (são aqueles primeiros cinco segundos terríveis). Abertura de Harold e jogos de grupo é outra. Aí sim, podemos fazer um jogo orgânico de exploração de tema com esse tipo de exercícios físicos.

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  4. Olá Pedro! Fico deliciada a ler o que contas...estamos desejosos de que regresses e de te ver improvisar outra vez...bjs, Mary

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